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GERARDO MELLO MOURÃO, POETA ABSOLUTO

Especial para o Caderno de Cultura do Diário do Nordeste

Gerardo Mello Mourão, o poeta oracular e absoluto que tinha orgulho de dizer-se jagunço cearense há quatrocentos anos, não pôde ver o alvor do dia 09 de março de 2007 e virou a última página da sua história lutando pela vida com a mesma serenidade com que enfrentou tantas mortes em plena vida.

Sua partida, apesar de esperada, entristeceu o mundo intelectual e deixou-nos um vazio que precisa ser preenchido para que possamos dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como por exemplo, a morte, essa companheira inconfiável que, num simples bater de pálpebra, vira o mundo ao avesso e desmantela tudo o que tomamos por real, insuprimível ou mesmo eterno.

Mas quem sabe morrer de vida longeva, morre silente, no silêncio da pena que corre suave para inspirar os sábios e os deuses. Gerardo morreu silente, mas para a camarilha que se amotinava com o fito de excluí-lo dos cânones políticos e literários, Gerardo já havia morrido em vida, vítima das conspirações, das prisões, da inveja e do silêncio hostil dos núcleos acadêmicos do Brasil.

Gerardo não teve lugar na Academia Brasileira de Letras, nem nas Academias de Letras do Ceará; não cobrou do Estado os danos morais e matérias que o Estado lhe causou; não requereu aposentadorias pelo tempo que serviu à Pátria Brasileira e nunca pesou contra ele a acusação de dedo-duro, o que nos leva a crer que Gerardo, pela sua vida mesma, pela sua grandeza moral e intelectual, encarnou a metáfora do Albatroz “imensa ave dos mares” que Baudelaire sublimou num dos mais belos poemas de língua francesa: “suas asas de gigante o impedem de andar.”

Senhor das línguas conhecidas e desconhecidas, das línguas antigas e esdrúxulas, Gerardo foi recebido em nossa casa quatro vezes ao longo de 13 anos de irmandade, e nos recebeu, a mim e à Rossana, em seu apartamento-museu, dezenas de vezes, mas somente em março de 2006, como que antevendo o destino se cumprir, fui com o cineasta Wolney Oliveira à casa do poeta que, apesar do ombro fraturado, nos acolheu com o entusiasmo de criança e lá gravamos durante cinco dias consecutivos, suas confissões, peripécias e aventuras.

Dona Lea, testemunha e guia dos passos do marido, nos mostrava com seus olhos os livros, os objetos, as artes e com o dedo apontava os labirintos da casa onde, desde o princípio já se sabia que, para o poeta a busca da musa era sempre mais sublime que o encontro. E quantas horas de sabedoria: “Eu não persigo a fama. Eu persigo a glória e escrevo para chegar diante de Deus com minhas obras, na esperança de ser acolhido com minhas idéias”.

Quando fechávamos um bloco fílmico e fazíamos uma pausa, o poeta incorporava o filósofo, metia a mão no seu poço de erudição e ditava: “O destino de um escritor não é um labirinto de acasos, mas um labirinto de circunstâncias criadas, circunstâncias  que o levam por caminhos que se bifurcam, pois é precisamente numa bifurcação onde nos achamos perdidos.” E ao final do dia, quando vinha a fadiga, Gerardo nos brindava, ora com tragos de bom vinho, ora com uma poesia anestésica e paralisante.

Felizmente a memória de Gerardo está preservada em 10 fitas de 1 h e agora temos a obrigação de entregar ao Brasil o documentário de sua vida, cujo título foi sugerido por ele próprio, inspirado em suas obras:  “No Rastro de Apolo”.

Diante de tantos depoimentos, documentos e fatos históricos, é bom e prudente avisar aos pretensos biógrafos que não é tarefa fácil biografar um vulto da dimensão do Gerardo, mestre e preceptor de duas gerações de poetas e escritores. Não é tarefa para beletristas, pois sua história se confunde com a História do Brasil ao longo do século XX, já que viveu o século inteiro, e atuou no enredo com a convicção de que não lhe cabia fazer história, mas sofrer a História.

Levanto essa questão porque, recentemente, li numa entrevista do autor de um livro sobre Gerardo, a seguinte afirmação: “Dos membros da Santa Hermandad de la Orquídea restavam Gerardo e Abdias Nascimento. Com a morte de Gerardo, Abdias Nascimento é o único sobrevivente.”

Ora, a afirmação é infundada (coisa de quem repete por ouvir dizer), pois Raul Young (95 anos), o membro mais antigo da Santa Hermandad, continua vivo e lúcido, compondo num balneário em Pinamar, na Argentina. Antes da morte de Gerardo,  Raul Young recebeu a visita do confrade, Abdias Nascimento (93 anos), a quem entregou um livro de poesias inédito para ser lido e prefaciado pelo inventor do “País dos Mourões”.

Mas esse não é o único equívoco cometido pelos pretensos biógrafos de Gerardo. Durante as filmagens, o poeta desabafou e externou a sua indignação dizendo-nos: “Nunca foi condenado à morte como insinuam os sacripantas da história e da má fé, pois não havia pena de morte no Brasil à época, nem mesmo no caso do decreto de 1942, que me condenou à prisão perpétua. Nunca houve processo judicial legal contra mim e o processo do infame Tribunal de Segurança Nacional nunca teve sequer autos judiciais, constando apenas de um inquérito do Dops. Nunca fui condenado por nenhum lei brasileira, nem por qualquer tribunal legalmente constituído, e nunca compareci diante de um juiz para ser julgado. Nem mesmo o infame Tribunal de Segurança ousou me acusar de conspirar contra o Brasil. A acusação de espião nazista e de haver colaborado para o afundamento de navios na costa brasileira, partiu dos meus adversários na imprensa, de David Nascer, da Revista O Cruzeiro, de quem me vinguei exemplarmente obrigando-o comer uma iguaria bizarra e imunda. Tenho um imenso e olímpico desdém por uns pobres bonifrates que me consideram um poeta importante e que tenho direito a uma revisão dos “erros” do passado. Não tenho erros políticos a corrigir. Portanto, não permito que ninguém mude uma vírgula do meu passado. Minha história pessoal é um patrimônio de que muito me orgulho.”

Desde muito se sabe que os navios foram afundados por submarinos aliados para forçar o Brasil a entrar na 2ª Guerra, trocando borracha da Amazônia e vidas de milhares de nordestinos por uma siderúrgica no sudeste. O caso em que Gerardo foi agredido nos mais elementares direitos humanos, é único em toda a história do Ocidente, pois não se conhece outro caso em que alguém tenha sido condenado por decreto com aplicação retroativa.

Gerardo, sozinho, foi e é uma rebelião e pelo legado que nos deixa, em obras literárias de valor insuprimível, é, sem dúvida, muito mais do que dele já dissemos ou ainda estamos por dizer ao longo do século em curso. E quando invocamos um mito com tal dimensão, logo aí vem ele, pisando suave num tênis macio, com as mãos para trás, olhos agudos, brilhantes e atentos a tudo, vestido num terno impecável e gravata-borboleta, esboçando um sorriso matreiro antes de contar alguma peripécia com sua voz de trovão.

Lembro-me que, após uns dias em sua Ipueiras, Gerardo regressou a Fortaleza e fomos juntos para um evento na Assembléia Legislativa. Na tribuna, após haver falado das misérias que testemunhara durante sua viagem ao sertão do Ceará, ele perguntou aos deputados: alguém poderia dizer para que serve um poeta num Estado pobre em Cultura, Educação e Saúde? Após um tempo de silêncio frustrante, eis que ele afia as palavras na sua língua de pedra e diz: “Neste mundo o que dura é o que foi fundado pelos poetas e não pelos especialistas, que são meros figurantes de uma tarefa ancilar. Não são protagonistas do saber nem da história. Nunca um especialista criou algo duradouro nem embasou uma nação.”

Ao ouvir isso, suspeitei que Gerardo utilizou o eufemismo “especialista” para não deixar os deputados que o aplaudiam de saia-justa.  E prosseguiu: “A Grécia foi fundada pelo poeta, Homero, cego e gênio. O império romano foi inspirado pelo poeta, Virgílio e por um escritor que se fez general, Caio Julio César. O mundo judaico foi fundado pelos poetas das profecias, Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel e pelos Cantos do rei Davi. A civilização mulçumana foi fundada pelo poeta Maomé, seu senhor e soberano. A China e a Ásia Oriental foram fundadas pelo poeta Kung-Fu-Tze, que conhecemos por Confúcio. A Itália foi fundada por Dante, poeta absoluto. Churchil, animava suas tropas contra o fogo de Hitler, enviando aos soldados os versos de Shakespeare. Os soldados germânicos levavam na mochila os Cantos de Rilke e os hinos de Hölderlin. E o que seria de Portugal sem Camões e Pessoa? Da França sem Voltaire, Baudelaire, Lamartine e Hugo? E o Ceará sem seus poetas, renegados e esquecidos? E finalizou dizendo: foi o Deus poético e dialético que engendrou o pensamento mítico, o tempo divino do homem, mas foi a verdade helênica que deu vigor à noção de liberdade e democracia, verdade luminosíssima que fundou o homem livre.” Os aplausos não impediram o nosso poeta de dizer: “É para preencher o vazio do espírito humano que serve um poeta com sua poesia.”

Ruy Câmara