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TERRORISMO, UM OBJETIVO CELESTE

O terrorismo é um empreendimento caro, que exige patrocínio de Estado para levar adiante sua causa e seu objetivo. Sua ação anárquica e destruidora atinge a ordem e a paz e sua vítima é a sociedade. A lógica do terror é ter um ou vários inimigos sujeitos às retaliações que possam ampliar a crise e conseqüentemente a sua importância. A psicologia de aliciamento baseia-se na crença do sujeito-moral passar a pertencer a um grupo solidário, de ideal revolucionário, utópico ou metafísico.

Os terroristas que atuam no mundo têm motivações distintas para levarem adiante os seus atos. As três mais comuns são: motivação política-ideológica; territorial e econômica; e religiosa ou carismática.

O pior terrorismo é o carismático, ou chamado apocalíptico e de libertação, que não está interessado no que a seu respeito pensamos, pois se caracteriza pelo total desprezo à vida individual e à vida coletiva. Em sendo Deus sua ancoragem última e sua lógica falibilista, o fanático encontra aí a justificativa para levar no corpo, na alma e nos sentidos, o caos estremo. Isso explica porque o terrorismo político-ideológico, historicamente inspirado em Marx, logo se converte em terrorismo dogmático. As premissas celestes, todas maniqueístas, e a liberdade no paraíso, são fundamentos extremamente sedutores, retirados dos versos do profeta, para dar sentido ao que não faz sentido algum. Como em todo livro sagrado pode-se achar verdades para tudo que se procura, não é estranho que os grupos radicais islâmicos encontrem no Alcorão a justificativa para o terror, já que o terror justifica a sua causa, a causa deísta, que se configura patológica.

Quando o terrorismo não tinha pleno acesso às tecnologias de matar, a atividade era uma plataforma de expressão máxima da opressão social e não tinha como alvo principal a eliminação de inocentes. Hoje o terrorismo é letal e está disposto a trocar vidas por notoriedade. A invenção da ação suicida é um fator supremamente amedrontador e desse modo o terror consegue recursos de doadores privados fazendo extorsão. Alguns grupos fanáticos, não suportando mais esperar o dia do juízo final, precipitam-se para o fim abrindo a caixa de Pandora num lugar estratégico que possibilite a destruição massiva.

Com a derrocada da Cortina de Ferro no leste europeu, muitos cientistas inativos passaram a prestar valiosos serviços a vários grupos terroristas no Oriente e no Ocidente. Atualmente a maior arma em favor do terrorismo é a mídia universal. Sem mídia o terrorismo se tornaria quase impotente. Como sua significação é simbólica, tanto pelo mal que infunde, quanto pelo dano da ação, a recente ameaça de uso de armas químicas, significa mais poder de barganha do que o próprio uso do acervo mortífero.

Se observarmos a história do terror, perceberemos que os firmes objetivos do terrorismo nunca foram plenamente alcançados. Os palestinos, mais antigos no negócio de matar, apesar da conquista da faixa de Gaza, continuam a disputar espaços com os árabes, seus irmãos de origem. O PKK, dos curdos sediados em Atenas, abandonaram o marxismo e se converteram num tipo de islamismo deformado quando deixaram de receber patrocínio dos russos e do Irã. O ETA, especialista em atentados de qualidade política, já há muito perdeu o apoio europeu para criar o país Basco na Espanha. O GNA, na Argélia, apesar das vidas que eliminou, não criou o estado islâmico de libertação argelina. O Sendero Luminoso, no Peru, que anda de mãos dadas com os chefões da droga, nunca conseguiu impor suas premissas xenófobas. O Tupac Amaru, mortalmente atingido por Fujimori no episódio da embaixada do Japão em Lima, nunca conseguiu estabelecer um Estado marxista no Peru. O LTDE, dos tigres-hindus, inspirados no marxismo-trotskista-leninista-maoista, que massacrou milhares de budistas e mulçumanos, transformou-se numa campanha clássica de faxina étnica. Cem mil indivíduos foram mortos e ainda não há uma nação Tammel no Oriente. Isso prova que o terrorismo como estratégia é sumamente ineficiente no que tange ao objetivo último. Só funciona como mensagem. Como práxis objetiva não há êxito duradouro. O que consegue é despertar ódio e repúdio instantâneo contra suas atrocidades.

Todavia, por detrás de toda ação terrorista há sempre dois interesses conflitantes, um político e outro econômico, a ambos confluem para o oportunismo direto do capitalismo beligerante, que se sustenta no tripé: tecnologia de ponta, capital volátil e poder militar. Mas como o ideal terrorista deriva da malignidade humana, que é congênita, nada o exterminará deste mundo velho, tão velho quanto a sombra do Eterno, por isso o terror suicida cobiça a glória, e se esta for póstuma, significa o coroamento do seu celeste objetivo.

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Ruy Câmara, romancista, dramaturgo e sociólogo. Artigo publicado em 17.09.2001 no Jornal Diário do Nordeste.