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SERGIO MACHADO, EDITOR E ILUMINISTA

É com profunda tristeza que escrevo estas linhas em elegia ao meu editor no Brasil, Sergio Machado (1948 – 2016), presidente do Grupo Editorial Record, falecido na madrugada desta quarta-feira (19/20 de julho de 2016), aos 68 anos, em decorrência de uma cirurgia feita em novembro de 2015, no Rio de Janeiro, para a retirada de um intruso orgânico na meninge.

O garoto Sergio Machado tinha 6 anos de idade quando seu pai, Alfredo Machado, em sociedade com seu tio, Décio Abreu, plantaram em 1942 a semente de uma distribuidora de quadrinhos e serviços de imprensa que viriam a se tornar mais tarde, o maior conglomerado editorial da América Latina. 

Aos 24 anos, o jovem Sergio Machado, estava infeliz na mineradora Vale do Rio Doce, em Vitória – Espírito Santo e retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar com seu pai, suprindo com desenvoltura a lacuna deixada pelo seu tio, Décio Abreu, que havia se desligado da empresa em 1970. 

Naquela época, Sergio Machado deve ter visto tantos homens de letras pobres e desprezados pela sociedade, que preferiu não ser mais um a aumentar esse número e empenhou-se na tarefa de transformar palavras e ideais em papeis monetizados. Seu teste de fogo ocorreu no dia 17 de agosto de 1977, por ocasião do lançamento do romance “Tieta do Agreste”, de Jorge Amado. O ainda aprendiz de editor, produziu um tremendo impacto midiático no Rio de Janeiro, colocando um avião para sobrevoar as praias cariocas, propagandeando o livro. Em poucos dias a obra do escritor baiano se tornou um sucesso de público e de vendas. 

Em 1991, seu pai e preceptor faleceu e Sergio Machado, conservando a vocação paterna para os livros e finanças, assumiu o comando da empresa ao lado de sua irmã, Sônia Machado Jardim. Desde então o grupo Record não parou de crescer, nem de inovar, tornando-se vanguardista em infraestrutura, em aquisições de empresas e de selos, de novas tecnologias, em logística e, sobretudo, na contratação de autores nacionais e estrangeiros, consagrados e estreantes, tonando-se uma empresa 100% brasileira e líder absoluta em vários segmentos editoriais, notadamente no segmento dos não-didáticos.

É consenso entre os autores, editores e agentes literários do mundo que, inobstante a expertise como empresário, o senso de oportunidade, a seriedade e a sensibilidade para reconhecer talentos, Sergio Machado não considerava o seu trabalho enfadonho, já que passava a maior parte do seu tempo isolado em seu gabinete, e mesmo açoitado pela urgência editorial, não se aborrecia se a sua rotina era tão previsível quanto a de um relógio na parede. 

Editora Record e outras

E foi assim que ele ampliou muitas vezes o negócio herdado do pai, transferindo agora para seus sucessores uma diversidade de empresas sólidas e de selos editoriais que estampam com prestígio mais de 8 mil títulos ativos nos catálogos das editoras do grupo, a saber: Bertrand Brasil, José Olímpio, Civilização Brasileira, Paz e Terra, Verus, BestSeller, Best Business, BestBolso, Rosa dos Tempos, Nova Era, Viva Livros, Difel e os selos Galera Record e Galerinha Record. 

Além da publicação das obras de vários autores agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura, e também de autores de obras sem tanto sucesso comercial, a aposta mais bem sucedida e que colocou o grupo Record na liderança do mercado editorial, foi sem dúvida a aquisição de um moderno equipamento de impressão (Sistema Poligráfico Cameron) único no continente, capaz de produzir até 100 livros de 200 páginas por minuto, seja de ficção; narrativas históricas e científicas; ensaios culturais, sociológicos, literários e filosóficos; reportagens; romances policiais e de suspense, literatura feminina e quadrinhos. O desafio que ele não pode concretizar, mas certamente o será pela sua sucessora, Sônia Machado, era adequar o grupo editorial aos novos tempos da era digital.

Sergio Machado foi verdadeiramente um editor exemplar, arrojado e muito corajoso. Em 2004 eu andarilhava pela Flip, em Parati, perguntando-me intrigado: por que motivo a Record não está participando? No dia seguinte, já me sentindo um penetra e sem saber porque todos os autores da Record foram proscritos do evento, li na imprensa uma nota de protesto do Sergio Machado, dando conta de que o Grupo Record não participaria com seus autores daquele oba-oba, porque se tratava de um evento para atender aos interesses da Cia da Letras. 

Apenas para avivar as memórias de alguns pobres bonifrates que se presumem merecedores de prêmios e de glórias fictícias, em 2011 eu tive o prazer de enviar uma mensagem de apoio ao meu editor, parabenizando-o pela coragem de enfrentar a comissão do prestigiado Prêmio Jaboti, por discordar do prêmio que fora dado (de forma imerecida e sabe-se lá a que título) ao sambista, Chico Buarque de Holanda, já que os jurados o classificaram em 2º lugar na categoria Romance. 

Ele não recuou nem mesmo diante dos boicotes da camarilha que se amotinou e dilapidou a nação nas sombras do poder, nem das figuras publicas que tentaram de todas as formas impedir a publicação de certas obras biográficas. Tanto é verdade que os operadores dos negócios culturais públicos jamais conseguiram impedir que as suas editoras publicassem as obras de um punhado de autores que desde o início do século em curso, combatem as organizações criminosas que tomaram o Brasil de assalto, dentre esses autores incluo-me com a meditativa exatidão das minhas convicções. 

Um característica de Sergio Machado como editor foi o seu compromisso com a literatura brasileira, tanto que jamais deixou de publicar os autores nacionais, mesmo nos tempos mais difíceis. Contudo, ao longo do seu percurso de sucesso, é provável que tenha lamentado o fato de haver deixado de comprar por apenas U$ 5 mil o romance Harry Potter, da escritora britânica, J. K. Rowling, adquirido pela Rocco, tonando um sucesso mundial. Outra aquisição que deixou escapar por não haver aumentado a oferta em U$ 12 mil, foi “O Código Da Vinci”, do escritor norte-americano, Dan Brown, obra que se tornou best-seller no mundo inteiro, publicada no Brasil pela Sextante, empresa dos netos de José Olympio, fundador da editora homônima que faz parte do conglomerado da Record.

Sabemos que Sergio Machado vinha há muitos anos escrevendo seu livro de memórias (onde estarão esses manuscritos biográficos?) mas, infelizmente, quis a flecha insensível do destino interromper sumariamente o seu processo criativo, privando o mundo e essa nação empobrecida por incúria de governos corruptos, de um convívio mais perene com as suas ideias e convicções, suas crenças e desafios, suas vitórias e problemas, seus amores e suas dores. 

Ouçamos o que diz a minha querida amiga, Luciana Villas-Boas, editora responsável pela minha estreia na literatura brasileira e diretora editorial do grupo até 2012: “Enquanto Alfredo Machado atraiu para a editora grandes nomes da literatura brasileira já consagrados, como Graciliano Ramos e Carlos Drummond, na gestão de Sergio a Record criou seus próprios autores, muitos deles hoje já quase canônicos”.

Nosso editor cumpriu com plenitude e autarcia o seu papel de homem de negócios e e de editor consciente do seu ofício, e hoje fez a sua viagem para além das plagas dos imortais, deixando sua mulher, Maria do Carmo, suas três filhas e três netinhos, com a missão de continuarem o ofício iniciado pelo patriarca, Alfredo Machado, em um período negro da histórica trajetória humana (1942), quando as nações com seus homens e suas armas se matavam por muito pouco ou quase nada.  

Durante o velório de Sergio Machado, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, sua irmã, sucessora e agora presidente do grupo, Sônia Machado, disse com solene ternura e convicção: “meu irmão deixa um legado e uma missão: a valorização dos nossos autores, que é o grande patrimônio da Record”. 

Sônia Machado

Sônia Machado, que em 2004 me honrou com a sua presença por ocasião da premiação deste autor na Academia Brasileira de Letras, tem ao seu lado duas filhas com a garra e o tino herdado do editor, Roberta Machado e Rafaella Machado, que já trabalham no grupo, uma como diretora comercial e a outra como editora do selo Galera Record.

Como membro dessa comunidade editorial que tão prontamente me acolheu, ao tempo em que eu escrevia apenas para contentar o próprio espírito, desejo de coração que toda a família se recupere desse tombo e que juntos e unidos levem adiante o sonho que o nosso editor realizou por puro desejo de sempre fazer o melhor, inclusive cuidando pessoalmente das edições dos autores nacionais e estrangeiros que tanto nos encantam e nos inspiram com as suas luzes possantes. 

Hoje o Brasil deveria ter as suas bandeiras (verde-amarela-azul-e-branco) hasteadas a meio mastro em todas as instituições de cultura e arte, como um gesto de reconhecimento e de gratidão ao Editor iluminista que dedicou grande parte da sua vida à produção de livros, ou melhor, ao mais eficiente instrumento para civilizar as gerações presentes e futuras com palavras e conhecimento.

Ruy Câmara

Escritor