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PLÍNDOLA, QUE COISIAS!!

Temos em mãos “Plíndola” uma parte importante do feudo poético do médico, ensaísta, tradutor e poeta, Pedro Henrique Saraiva Leão, membro da Academia Cearense de Letras, da Academia Cearense de Medicina, da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia, da American Society Colon and Rectal Surgeons (EUA) e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, dentre outras instituições. 

Tão intrigante quanto o neologismo “Coisias” que se lê na capa do livro para conotar ou denotar “poesias” é oA imagem pode conter: 1 pessoa título da obra: Plíndola, palavra proparoxítona, provavelmente feminina, cujo significado não consta ainda nos dicionários. Embora exista uma escola em Georgetown, na Guiana Inglesa, que se chama, Plindola Nursery School, podemos crer que o significado de Plíndola é genuinamente fonético ou imagético. 

É longo o caminho poético de PHSL e mais longa foram as suas incursões intelectuais nas instâncias superiores do conhecimento e dos múltiplos saberes para se tornar o grande poeta que é, verdadeiramente, um poeta cônscio de que através da literatura é possível dialogar com as vozes do passado e imaginar que é possível se dirigir aos leitores do presente e do futuro. 

Enquanto os canhões das potências mundiais despejavam fogo pesado sob o solo do Senhor, nascia em Fortaleza, no dia 25 de maio de 1938, PHSL. Naqueles anos conturbados, nascia também no Brasil, embora de forma ainda muito embrionária e temerária, a crítica literária acadêmica, ofício que praticamente inexiste nos tempos que correm, o que é lamentável, porque a literatura, notadamente a poesia, carecem e muito de um honesto sistema de reconhecimento para reaproximar os leitores dos autores pelos méritos das suas obras. 

O veterano PHSL estreou na literatura com 12 poemas em inglês, em 1960, ano em que a crítica literária se tornou objeto de estudo específico; ano em que a literatura foi enquadrada nas teorias exegéticas superiores; ano em que o comedido professor Antônio Cândido enveredou pelo terreno da crítica, ao mesmo tempo em que a vanguarda da época se tornava, equivocadamente, a palavra predominante do código literário para reconhecer os iniciados que se converteram em anticonformistas dos conformistas, ou seja, daqueles que reagiam contra as regras em nome de outra regra, que por ser nova, no papel exigia-se menos arte e mais artifício, e no plano ideológico, menos talento e mais comunismo. 

Felizmente, PHSL percebeu que, para se tornar um grande poeta não seria preciso buscar um alinhamento poético ou ideológico com os herdeiros do modernismo tutelar brasileiro que Manoel Bandeira semeou para aplainar o terreno de Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Vinicius de Morais. 

No claustro do seu consultório-biblioteca, PHSL enveredou por um caminho poético incomum, provavelmente inspirado no versilibrismo mais elegante da arte poética e bem distante do regionalismo que modelou o terceiro turno do modernismo no qual o didatismo estéril e logomáquico parecia mais autêntico do que a própria arte. 

Ao longo da vida PHSL manteve-se fiel ao seu ofício poético e sua “Coisias”, surge agora como testemunha literária de mais de meio século de constante aprimoramento estético e estilístico e à margem dos movimentos literários que se tornaram escolas. 

PHSL não recorre ao memorialismo umbilical tão comum aos poetas e sua obra não revela nenhuma influência daqueles poetas que aplainaram o terreno do parnasianismo e do simbolismo para a semeadura da poesia desincrustada dos velhos chavões do academicismo esnobe ou inútil. Desse modo, creio eu, PHSL conseguiu escapar das danações do concretismo, que a meu ver não tem apelo poético, mas apenas estético ou visual, quando muito consegue. 

Em “Plíndola” a boa poesia contorna a nostalgia telúrica e aterrissa no solo do realismo antilírico, no qual a linguagem que encanta o leitor pelos enigmas das construções poéticas, também o seduz pelo experimentalismo informal, pelo descompasso métrico, pela austeridade no emprego de palavras, pela sonoridade, pelo verismo e pelo visionarismo que está sempre muito próximo da alucinação surrealista. 

Enquanto existir poetas do porte de PHSL, haverá poesia excelente, de modo que não se pode falar jamais que a rima, a métrica ou a ausência de ambas, são recursos exclusivos de uma dada época, de uma dada escola ou de um determinado movimento literário. 

Plenamente consciente de que a realização do poeta é o poema, PHSL passou a semear poesia pura no solo árido dessa fratura seminal com o concretismo e o fez sob as luzes do aparente esgotamento das matrizes literárias ditas dominantes ao longo das últimas décadas do século vigésimo. 
Ouçamo-lo com toda a sua plenitude e genialidade: 

Fica sempre um pouco de nós por onde andamos

dos nossos braços naqueles que abraçamos

fica sempre algum sussurro daquilo que gritamos

fica sempre algum calor no leito que dormimos

alguma nódoa daquilo que vertemos

sempre algo de nós naquilo que largamos

um resto de pó dos caminhos que trilhamos

algum senso na loucura que adotamos

um ganho qualquer naquilo que perdemos

fica sempre um bem-querer naqueles que sofremos

e sempre algo a dizer naquilo que dissemos.

(PHSL, do livro Ilha das Canções, 1983)

Os críticos mais severos talvez possam encontrar em PHSL um paralelo com a poesia dos poetas da geração de João Cabral de Mello Neto, Ferreira Gullar e Ledo Ivo. Contudo, tentar decifrar de supetão os sentidos metafóricos dos versos que embelezam os poemas de PHSL é um exercício muito traiçoeiro, sobretudo para a crítica acadêmica que tem o hábito de situar os poetas livres em certas formas literárias. 

A erudição e o pleno domínio das línguas, inglesa, francesa, alemã e espanhola, coloca o nosso poeta no patamar mais elevado da cultura brasileira, condição que o permitiu nos brindar com belas traduções de poemas de Mallarmé, Ezra Pound, Paul Valéry, Apollinaire, Cummings, dentre outros nomes consagrados.

É unânime e enorme a crítica elogiosa existente sobre a poesia pedrohenriqueana e abrange teses, ensaios e opiniões consagradoras como as de José Alcides Pinto, Jorge Piero, Pedro Paulo Montenegro, Luciano Maia, Batista de Lima, Dimas Macêdo, Elvia Bezerra, Carlos Augusto Viana, Floriano Martins, Juarez Leitão, Noemi Elisa Aderaldo, Paulo de Tarso Pardal, José Helder de Sousa, bem como as resenhas de inúmeros autores nacionais de renomada, dentre eles, Assis Brasil e Carlos Drummond de Andrade. 

Mas foi o bardo das Terras do Dragão, o genial e indomável ficcionista, José Alcides Pinto, o primeiro a chamar a nossa atenção para a importância que PHSL dá ao aspecto gráfico e à sonoridade na montagem da linha do verso, ao lado da linguagem audaciosa e de uma pontuação arbitrária que enriquece a forma e o conteúdo dos seus poemas. 

Como exímio articulador de novas palavras e desarticulador de fonemas, PHSL, mais do que qualquer outro poeta inventivo, sabe explorar com singular competência o léxico e os acordes fonéticos dos seus neologismos, subvertendo assim os sons vocais tradicionais para recriar novos sons, novos timbres e novos significados, alguns de vibrantes sonoridades. 

Além de poeta de rara sensibilidade, PHSL é mestre na arte da tolerância prazerosa com os amigos e é tão generoso que mantem no seu ciclo de convivência social, a variedade, a diversidade e a contradição, sem que nada disso o impeça de ser fiel ao seu gosto literário erudito, elitizado e austero.

A vida, o amor, o desamor e a morte estão sempre presentes nos versos desse poeta feito de amigos, e são tantos os amigos que ele conserva e os quer sempre por perto, a ponto de escrever na última página de “Plíndola”: não vi você no meu velório! 

Parece que ao escrever esse verso trágico e disruptivo, PHSL quis sofrer em versos o retorno imaginário de Mondragón à Montevidéu, quando o poeta foi obrigado a passar pelo inferno da sintaxe para sofrer nos sentidos todos os castigos parecidos com as figuras da retórica lautreamoniana. 

Ruy Câmara
Fortaleza, 25 de maio de 2019

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Bibliografia publicada:
12 poemas em inglês. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1960;
Ilha de Canção. Fortaleza: Edições UFC, 1983;
Concretemas. Fortaleza: Xisto Collona Editor, 1983;
Poeróticos. Fortaleza: Nação Cariri, 1984;
Meus Eus. Fortaleza: EDUFC, 1995;
Trivia. Fortaleza: EDUFC, 1996;
Dicas para um jovem poeta. Fortaleza: Poetaria, 1998;
Poesia concreta no Ceará. Fortaleza: Poetaria, 2001;
As plumas de João Cabral. Fortaleza: Poetaria, 2002;
Circunstâncias. Fortaleza: Poetaria, 2003.

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