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Pedro Bial entrevista Ruy Câmara

Globo News - Espaço AbertoGLOBO NEWS – PROGRAMA ESPAÇO ABERTO

Pedro Bial entrevista o escritor Ruy Câmara.

Rio de Janeiro 13 de maio de 2003.

                     Abertura

No Espaço Aberto a revelação de um romancista estreante, Ruy Câmara, que constrói em sua estréia uma fantástica Biografia ficcional do Conde De Lautréamont, um dos casos mais misteriosos e instigantes da história da literatura. Não deixe de ouvir o escritor Ruy Câmara falar e narrar um pouco essa aventura, esse mergulho na vida e na obra do precursor do surrealismo, Lautréamont.

Íntegra da Entrevista

Pedro Bial: Salve, bem vindos ao Espaço Aberto. Você provavelmente nunca ouviu falar de Lautréamont, portanto sabe muito pouco sobre esse poeta franco-uruguaio do século XIX. Você provavelmente não conhecia Ruy Câmara, portanto não sabe nada sobre este romancista estreante. Em Cantos de Outono, Ruy Câmara ficcionaliza a biografia de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, ao que me parece muito mais baseado em inspiração poética do que em fontes históricos. Mas isso é uma das coisas que vamos saber agora.

Ruy, muito obrigado pela sua presença e parabéns por ter sobrevivido a essa dificílima empreitada. Antes de falarmos exatamente do livro, parece que você teve uma trajetória meio incomum; você era engenheiro, empresário, depois se tornou sociólogo, dramaturgo e aí virou escritor… Como foi que se deu isso?

Ruy: Bial, em primeiro lugar eu quero agradecer o seu convite e a sua gentileza de ter lido o romance Cantos de Outono, que deve ter tomado um pouco do seu tempo. A minha vida sempre foi marcada por tomadas de decisões, de altos e baixos, sobretudo na década de 90, que eu acompanhei e me ative, sobretudo, às transformações que ocorriam. Com isso eu assimilei muito bem o que precisava fazer de diferente para me sentir bem em relação a mim mesmo diante do mundo. A primeira coisa foi mudar radicalmente a minha concepção de vida e a forma de viver. É verdade que realizei muitos projetos noutras áreas até 1990. Em 1991 eu me vi diante de uma tragédia familiar, perdi minha filha Lia Câmara, e isso me obrigou a refletir muito sobre tudo. Então, a partir daquele momento eu comecei a atribuir outros valores à vida. Deixei de lado os negócios da família e passei a me identificar com a literatura como sendo a instância simbólica, ou melhor, o refúgio da minha fuga.

Bial: Uma tábua de salvação?

Ruy: Mais ou menos isso. A leitura de profundidade preenchia completamente o meu tempo e o meu vazio interior. Após alguns anos de clausura em minha biblioteca, eu tive a grande momento de encontrar esse personagem através de um livro terrível…

Bial: Isso era o que eu ia perguntar. Como é que foi esse encontro com Lautréamont.

Ruy: É uma história muito engraçada. Um amigo poeta, José Alcides Pinto, que é muito festejado no Ceará, surrupiou Les Chants de Maldoror de uma importante biblioteca e me enviou pelo correio. O livro caiu em minhas mãos em 1995. Na leitura do primeiro parágrafo tomei um susto tremendo e logo percebi que tinha em mãos uma literatura estranhíssima, algo sem precedentes…

Bial: Você lembra da frase?

Ruy: Claro. Praza aos céus que o leitor afoite e tornado momentaneamente feroz com isto que lê,  encontre sem se desorientar o seu caminho abrupto e selvagem através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheios de veneno, pois, a não ser que invista em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual a sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeber-lhe-ão sua alma assim como a água ao açúcar… E por aí vai.  

Participação especial de Cláudio Willer:

Lautréamont é um mistério literário. Ele morreu em Paris, em 1870, aos 24 anos de idade. A causa da sua morte não é sabida, seu túmulo também desapareceu. Ele era uruguaio, filho de pais franceses e estudou na França. O realismo, a preocupação com o sentido é praticamente suprimida. As histórias que ele conta são fantásticas, são delirantes e representam uma inteira liberdade de criação. É a palavra-linguagem de absoluta liberdade. Então ele indicou um caminho pra modernidade, que seria a criação em estado puro e liberta das convenções, sejam as convenções da literatura, ou as convenções da moral. Por isso ele é importante e é tido como um dos pilares da modernidade.

Ruy: Em 1995 eu ousei enfrentar a literatura de Lautréamont e mergulhei fundo.

Bial: O que lhe levou a reinventar Lautréamont?

Ruy: Creio que foi o “quase nada biográfico” que me estimulou a empreender uma caçada ao espectro de Lautréamont. Em 1996 fui a Paris com minha mulher, Rossana, e lá iniciei, sem muita pretensão, um levantamento bibliográfico, talvez pensando em fazer parte do núcleo dos autores importantes que escreveram sobre ele. Comecei a pesquisa na Biblioteca Nacional de Paris, onde há informações bibliográficas importantes e também muita repetição do que escreveram no início do século XX. Hoje tenho em meu poder uma vastíssima bibliografia, com mais de 500 artigos e ensaios sobre a obra de Lautréamont. Nesse romance, aqui e ali, eu entro em confronto com algumas teses esdrúxulas escritas por proeminentes autores. Em 1997 voltamos a Paris e numa caminhada, que se iniciou na Ile de la Cite, percorrendo igrejas e cemitérios, chegamos à rua du Faubourg Montmartre e avistamos, no frontão de um edifício, uma placa que fazia alusão a Lautréamont. Do átrio, onde puseram uma placa com um texto terrível de Lautréamont, vimos ao fundo um bistrô e fomos lá tomar um café. À mesa, já tomando vinho, vi uma janela fechada no 3° andar do edifício e comecei a imaginar: deve ter sido ali, provavelmente, onde aconteceu tudo, onde ele passou os últimos momentos…

Participação especial de Cláudio Willer

Nas manhãs ensolaradas quando as janelas estão escancaradas, ele apóia-se num parapeito e diz: esta janela é mágica, mesmo quando estou desgostoso, acuado na cama, o sol entra sempre alegre. De volta a cama ele prega os olhos nas partes protuberantes da noviça e já não consegue mais resistir às intoxicações dos prazeres da carne. 

Ruy: A aventura que começou no Montmartre, se estendeu pelo norte da Espanha, em San Sebastien, subimos para sul da França, percorrendo liceus, universidades, museus, bibliotecas, colecionadores, enfim, chegamos em  Bayonne, antigo Porto Basco. De lá fomos a Tarbes, a Pau, a Bordeaux, retornamos a Paris com algumas pistas novas e com a verdadeira foto de Isidore Ducasse, que está no meu site. Repito, a verdadeira e única foto de Isidore Ducasse e também outras informações preciosas que abriram caminhos para a concepção do romance. De Paris seguimos de trem para Bruxelas, onde se deu o encontro de Lautréamont com Baudelaire, e por fim desembarcamos no Porto de Montevidéu.

Bial: Mas você se viu diante de uma escassez de documentos, eu presumo, documentos, digamos, rigorosamente históricos sobre…

Ruy: Claro que sim. Vi-me diante de um mito e da sua miséria biográfica. O pouco que se sabe da sua biografia se confunde com o muito que escreveram sobre sua obra. Na França, na Bélgica e até mesmo no Uruguai, não há quase nada de Isidore Ducasse, nem mesmo uma tumba, já que seu cadáver, pela sua desimportância à época, teve de ser trasladado da 35ª divisão do Cemitério Montmartre-Nord para um ossuário público no subúrbio de Paris e lá se extraviou para sempre. Em 1998 refiz todo o percurso.  Voltei a Montevidéu, que é berço do poeta. Lá, revirei arquivoss, comprei livros, mapas antigos, etc. As pistas indicadas em 1925 pelos irmãos, Alvaro e Gervasio Muñoz, me levaram ao atual Nº 544 da rua Camacuá, onde Célestine teria parido Isidore Ducasse. Estivemos na rua Bacacay, para onde o cônsul François Ducasse, já viúvo, teria se mudado em virtude do novo traçado urbanístico da cidade, com a construção da Rambla Costanera. De pista em pista chegamos ao quarto Nº 9, no Hotel Pyramides, onde o pai de Ducasse teria vivido seus momentos de glória e também a sua agonia. Hoje temos certeza que o cônsul François Ducasse morreu completamente solitário, velho e doente, praticamente falido, aos 80 anos, no dia 18 de novembro de 1889. Seus restos estão sepultados no jazigo Nº 713, no Cemitério Central, onde depositei uma pedra simbolizando que nenhum mistério resiste ao tempo e aos rigores de uma investigação séria. Estive algumas vezes na Catedral de Montevidéu, onde conseguimos com Maria Eugenia Arnaud, secretária geral da Cúria,  a cópia autêntica da Certidão de batismo de Isidore Ducasse. Enfim, andei por toda parte. Recentemente, após mil horas de novas pesquisas, eu e Rossana voltamos a Montevidéu, refizemos os percursos de modo  inverso e desvelamos algumas pistas novas que mais tarde serão reveladas aos fãs desse autor monumental que é Lautréamont.

Bial: Mas ele não é monumental em termos de quantidade de livros:

Ruy: Não, não, Lautréamont deixou apenas um único livro. Poesias é uma obra menor, que ficou inacabada. Tenho essas obras em meu poder, ou melhor, uma reprodução fidedigna de Les Chants de Moldoror, edição de 1968, que após a publicação logo foi tirada de circulação, e também uma reprodução de Poesias, livro publicado postumamente, na sombra do mais importante, que é os Cantos.

Bial: Por que tiraram de circulação? A obra é muito obscena, violenta demais?

Ruy: Eu, particularmente, não vejo obscenidade alguma na obra de Lautréamont. Como diz o meu amigo JAP, obsceno mesmo é o escritor que escreve ruim. (Risos) 

Participação especial de Cláudio Willer:

Porque não dissestes logo quem eras, cristalizações de uma beleza moral superior, moral com o peito ornado de grinaldas, de rosas e vetiver. Foi preciso que eu abrisse vossas pernas para vos conhecer, e que minha boca se pendurasse às insígnias do vosso pudor… Mas, coisa importante para se ter em mente: não esqueceis de todo dia lavar a pele de vossas partes com água quente, pois, senão, cancros venéreos cresceriam infalivelmente sobre as comissuras fendidas dos meus lábios insaciados… 

Ruy: O falso pudor é uma característica de toda sociedade que se orienta, em termos de moral, pelas idéias crucíferas, do medo, do pecado e do castigo, sem falar que naqueles anos a Suprema Corte Francesa era um horror em termos de falsa moral.  Era ao mesmo tempo inescrupulosa e conservadora. Era uma corte carcomida pelos cancros sifilíticos e pela corrupção da própria moral. As prisões escolares e as abadias eram o reino da pedofilia. Portanto, naqueles anos…   

Bial: Diga-se de passagem, 1868. (Risos)

Ruy: Sim, estamos a falar do século XIX, século de perseguições aos autores transgressores, Flaubert, Baudelaire e muitos outros dessa linhagem, conceituada Maldita. Isidore Ducasse também seria perseguido e, para não apodrecer no cárcere, escondeu-se por detrás de Lautréamont, seu cognome. Aliás esse termo Maldito não é originariamente de Paul Verlaine, já que, bem antes dele, em 1868, Isidore Ducasse fez uma alusão ao termo numa carta enviada ao banqueiro Darasse, na qual menciona o nome de Ernesto Naville, que lhe prometera escrever sobre Les Chants de Maldoror e falar dessa obra nas suas conferências em Genebra e Lousanne, tematizando o Problema do Mal. Verlaine viria a falar disso somente em 1884. Antes dele, bem antes, em 1868, Lautréamont utilizou essa expressão numa carta ao banqueiro Jean Darasse. Ele já tinha consciência de que seria mal compreendido e perseguido.

Bial: Agora, você a partir de uma Certidão de Nascimento e um atestado de óbito põe de pé, um livro que fica de pé, desse tamanho (risos) quer dizer…

Ruy: Mas ele deixou também sete cartas (risos).

Quem lê os Cantos de Maldoror com uma profundidade maior, encontra, aqui e ali, fragmentos autobiográficos de Isidore Ducasse, os quais, numa transplantação metafórica poder-se compreender o real sentido de algumas construções ficcionais que eu levei adiante para reinventar esse personagem no seu próprio universo. São nos fragmentos dessas cartas e nos recorte do seu texto que realçamos o dilema individual do personagem. Além das sete cartas originas que aparecem no romance, reproduzimos outras mais, naturalmente que são reinvenções daqueles momentos de tédio e de dor. Recorri a tudo isso porque eu tive a preocupação de reconstituir uma época de glória e caos e o pensamento dominante daquela época. Isso não foi fácil. A fase mais difícil nessa escritura foi encontrar a linguagem e o momento certo de puxar o personagem para a ação ou para a inação absoluta, porque tinha momentos em que ele ficava no estado de completa inanição de idéias e isso perspassava para o narrador. O momento mais terrível e que antecedeu a finalização do livro foi quando mergulhei no abismo do seu pensamento e descobri que o real sentido da vida de Isidore Ducasse era a negação da própria vida.

Bial: De eventos tidos como reais, é mais ou menos aceito que o encontro com Baudelaire realmente se deu. Como você vê isso?

Ruy: Tudo me leva a crer que esse encontro realmente ocorreu, afinal Baudelaire era o ídolo voluptuoso de Isidore Ducasse. O encontro se deu na primavera de 1866, no Hotel Grand Miroir, em Bruxelas, um ano antes da morte de Baudelaire. Naquela época os autores franceses costumavam se exilar na Bélgica, como o fez Victor Hugo logo após a vitória de Luis Napoleão. No caso de Baudelaire, sua ida à Bélgica, a pretexto de fazer conferências sobre Delacroix e outros, foi um auto-exílio, uma forma de fugir dos credores. Imaginar esse encontro entre Baudelaire e Lautréamont, dois monstros sagrados da literatura universal, um em ruína física e o outro em plena juventude, foi um dos grandes momentos da minha experiência literária. Esse bloco narrativo exigiu-me um esforço gigantesco. Foi muito sofrido, mas também prazeroso. Esse encontro eu considero como um dos pontos altos do romance Cantos de Outono

Bial: Já a carta da mãe de lautréamont sugerindo a Baudelaire o título Flores do Mal, deve ser pura ficção?

Ruy: Claro que sim. Em matéria de ficção tudo é possível. (Risos)

Bial: Lautréamont, antecipando artistas do século XX, morreu de overdose, não foi?

Ruy: Eu tenho plena convicção que ele se matou ingerindo coquetéis mortíferos, portanto, morreu de overdose e de um ato ainda mais secreto, que está na sua infância em Montevidéu, para onde jamais voltou.

Bial: Ele morreu de overdose e de um ato que, na sua versão, foi misteriosamente herdado da mãe, que se entorpecia manipulando pétalas de papoula, beladona, mandrágora, etc. Você tem alguma indicação de que a mãe de Ducasse usava mesmo essas drogas?

Ruy: Não só ela. É verossímil que na Europa, como em todas as civilizações, desde os primórdios, o homem sempre procurou uma fuga, sempre procurou alteradores de consciência para suportar o real ou até mesmo para suportar o tédio de um longo inverno. Bial, você que passou muitos invernos na Europa, sabe o que o tédio e a solidão significam. Tem momentos que você não suporta mais aquela monotonia. Sem sol o tempo não passa e o ambiente fechado passa a ser uma prisão. Naquela época o recurso aos alucinógenos não tinha o efeito nem a noção maléfica dos dias atuais, das manipulações químicas e dos fármacos produzidos em escala industrial. Os alteradores de consciência eram consumidos como nas tribos mais primitivas. O sujeito ingeria uma pasta de haxixi como forma de ficar ali parado, calmo, sem aflições, completamente ausente a tudo, sem noção daqueles tédios infinitos. Não era só vício, mas também uma necessidade. Baudelaire escreveu belos ensaios sobre as drogas, Paraísos Artificiais, traduzidos no Brasil, se não me engano pelo Saramago. Tudo isso me leva a crer que Célestine, uma jovem francesa, transplantada para um pais em guerra permanente com os vizinhos, vendo as carroças de cadáveres passando em sua porta, vendo as valas públicas engolindo os mortos aos bocados de cem ou duzentos, vendo aquele corpos incinerados nas ruas de Montevidéu, e diante da ameaça constante de contrair a peste, é mais do que verossímil que ela não suportou, tanto que se matou. Além do mais ela estava mal casada e não suportava viver submetida a um homem autoritário, pois como sabemos, François Ducasse era um conquistador incorrigível e assíduo freguês dos bordeis em Montevidéu.

Bial: Ela se mata e o filho sequer tinha completado dois anos de idade?

Ruy: Exatamente. Ela comete suicídio em dezembro de 1847 e deixa o filho entregue à própria sorte. Isidore Ducasse nunca perdoou a família pelo descometimento de sua mãe. Viveu 13 anos com o pai, sob a proteção de sua ama, Maná, até o dia do seu embarque para a França. Não podemos reprovar a decisão do cônsul François Ducasse, porque naquela época, educar os filhos na Europa era ponto de honra, era uma questão cultural relevante, de dominação e supremacia das famílias tradicionais que objetivavam a cúpula patricial de uma nação-colônia.

Bial: Por que os surrealistas fizeram de Lautréamont um modelo? Eu queria saber se você tem uma resposta para isso?

Ruy: Li recentemente, há 5 anos, um livro da Leyla Perrone-Moisés, intitulado Inútil Poesia, no qual há um artigo bastante esclarecedor sobre Lautréamont e os surrealistas. Eu penso que Lautréamont, ao romper o paradigma lógico da idéia preconcebida, ao quebrar a hegemonia aristotélica de narrar (começo, meio e fim), e ao impor o que se presume ser uma escrita automática, abriu um novo horizonte para a literatura ocidental. Com a ousadia ele foi acusado de haver cometido uma heresia literária, uma atrocidade imperdoável, tanto que, até hoje tem gente por aí que resiste um pouco a isso. Mas quem lê com rigor e esmero a adulteração literária da sua composição, percebe que tudo ali está solidamente apoiado dentro de um conjunto e de uma concepção extremamente lógica e bem ordenada. Quem lê os Cantos de Maldoror com um olhar bem posicionado, vai compreender que ali há um talento inventivo de alguém superdotado de uma imaginação poderosíssima para compor com tanta fertilidade. Essa, certamente, foi a percepção de André Breton quando, de repente, Cantos de Maldoror cai em suas mãos, numa daquelas noites em que ele e Louis Aragon se ocupavam em acalmar os loucos num asilo parisiense. Logo trataram de dar a ele o título de poeta maior da modernidade. Mas André Gide foi um dos primeiros, senão o primeiro a conceber o valor de Lautréamont. Puxou um autor que andava esquecido para o centro de um palco que o tornou emblema de vanguarda. Breton teve o mérito de pinçar Lautréamont da escuridão do século XIX e o tomou como inspirador desse movimento vanguardista, tão importante para as artes, em todas as suas formas e expressões. Salvador Dali bebeu muito nas fontes ducasseanas para criar aquelas obras fantásticas, aquele jogo de imagens que se abraçam e se fundem no mesmo espaço.

Bial: E hoje, qual é a atualidade que permanece sobre a obra de Lautréamont?

Ruy: Sua obra tem sido tema de importantes colóquios em diversas universidades de todas as partes do mundo, inclusive com o patrocínio da UNESCO. Lautréamont é um dos poucos autores do século XIX que continua sendo estudado. Ele é considerado unanimemente um mito da literatura. Sua obra tem amplitude porque influenciou toda uma concepção artística e com isso revolucionou o conceito de arte. Os dadaístas e surrealistas estão todos aí, no berço lautreamoniano. Então a importância desse autor é perene e universal porque, por mais que se pense que a concepção surrealista está sepultada, ela ressurge do nada, como ocorreu na minha aventura de escrever Cantos de Outono. A concepção suprareal surge do nada porque tem muitas formas de sobrevivência no íntimo do ser, como se vê na pretensão humanista da arte, da política, nas expressões dos jovens, na liberdade reprimida do nosso tempo, e até mesmo nas intenções dos pichadores de ruas.

Bial: Liberdade que se empresta ao artista depois que o século XX derruba essas barreiras e liberdade até para se expor. Por exemplo, o narrador de Cantos de Outono, você, neste livro, evidentemente que está contaminado por Lautréamont, você se deixa contaminar por ele. Como é que se dá isso?

Ruy: Não há outra forma de você escrever sobre um personagem grandioso sem se deixar influenciar pelas suas idéias. Quem se mete com Lautréamont há de incorporá-lo ou refutá-lo de imediato. O escritor que não incorpora o seu personagem corre o risco de ser fiel a ele e a si próprio. Então eu procurei ser duplamente fiel e para conseguir isso, eu não podia fugir da temática surrealista, como se vê nos personagens, Olhar do alto e Voz que narra, que nem sempre refletem a posição do narrador. Tudo isso faz parte de uma reflexão contextualizada dentro da concepção que metaforiza o real e também o que vigia no meado do século XIX. O maior desafio que enfrentei foi justamente ser fiel e respeitar essa contradição de identidade, essa forma de fazer literatura e arte pelo avesso. 

Bial: Inclusive, uma das frases mais bonitas do seu livro e reveladoras desses artifícios que você cita é: Do ângulo em que estamos, podemos dizer que tanto o Olhar oculto, quanto a Voz que narra, se expressam por códigos que exigem de nós, interlocutores mudos, um metacódigo referencial com o qual possamos identificar, na ação e no tempo, quando o Olhar diz o que a Voz nos faz ver.

Ruy: O Olhar diz o que a Voz nos faz ver é mimético, ilusório…, muito de quem conta uma história mais por adivinhar ou recriar do que por apurar. (Risos)

Bial: Vem cá, em português só há a tradução do Cláudio Willer?

Ruy: Que eu saiba, de referência bibliográfica importante, sim. Eu soube que vai sair agora uma nova edição de Obras Completas de Lautréamont, o que é muito importante, afinal o Willer nos fez o favor de introduzir Lautréamont no Brasil, uma tradução dificílima e complicada. Por isso o Willer tem uma importância muito grande nesse resgate.

Bial: Qual é trajetória ideal que você sonha para esse livro? Não é um livro talhado assim para qualquer leitor pegar, deitar e rolar. É um livro que no início exige do leitor entrar num universo e até mesmo numa retórica nada coloquial, nada que se acha no cotidiano de hoje. Então, o que você sonha de trajetória ideal para seu livro?

Ruy: Eu acho que esse romance precisa de um tempo para ser lido, relido e assimilado. Não se resume apenas à vida de Lautréamont, como se presume. As idéias estão todas aí. Creio que aos poucos ele irá ocupar o seu espaço e terá uma vida longa. O livro já está ao alcance do leitor, disponível em todas as livrarias do país, a Record  tem uma força muito grande de distribuição e tudo isso conta muito. Agora  vamos ganhar tempo cuidando das traduções. Tem aí um interesse editorial praticamente certo na América Latina, no ano que vem deve sair em espanhol, há também um interesse na França, que é o cenário de ação, portanto, as possibilidades são muitas. Precisamos trabalhar um pouco lá fora para que as coisas aconteçam. Sem falar do mérito literário, se é que tenho algum, a reinvenção do fenômeno Lautréamont desperta interesse em todas as partes do mundo. É surpreendente o número e a qualidade dos seus leitores secretos.    

Bial: E você já está adaptando a obra para o cinema, que você me contou…

Ruy: É verdade. O roteiro já vai bem adiantado, mas ainda há muito a fazer. Em julho próximo irei novamente a Montevidéu para definir as locações. Recentemente um importante escritor ironizou a minha pretensão dizendo: você vai saber adaptar um livro com este para o cinema? E eu respondi: o mais difícil foi construir essa obra do nada. Logo, adaptá-la para um roteiro de cinema vai ser 1% do meu trabalho.

Bial: Será, cara? (Risos)

Ruy: Adaptar a obra que escrevi para um roteiro fílmico é fácil, mas até sair o filme, é outra história. (Risos)

Bial: Está certo. Parabéns, Ruy, pela aventura bem sucedida. Eu acho que com esse livro muitos brasileiros irão entrar em contato com Lautréamont pela primeira vez, e é uma estréia luxuosa para você como romancista.

Ruy: Também acho, Bial. Muito obrigado pela oportunidade e por suas palavras. Você é um cara muito admirado no Brasil e por todos nos no Ceará, onde o seu programa tem uma bela audiência.

Bial: Então leve pessoalmente o meu abraço para todo mundo do Ceará. Nós então conversamos com o escritor Ruy Câmara, que lança o seu romance de estréia, Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont. Aquele abraço e até a próxima no espaço aberto.

Tchau.                

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1- Pedro Bial, é poeta, escritor, jornalista e apresentador da Rede Globo de Televisão e Globo News.

2- Cláudio Willer, é poeta, tradutor, crítico literário e presidente da União Brasileira de Escritores.

3- Ruy Câmara é romancista, dramaturgo e sociólogo, autor de Cantos de Outono. .