DISPONÍVEL EM 68 LÍNGUAS / SELECIONE SEU IDIOMA


AVAILABLE IN 68 LANGUAGES / SELECT YOUR LANGUAGE

Manchetes
Capa » ENTREVISTA COM O ROMANCISTA ANTONIO SKÁRMETA

ENTREVISTA COM O ROMANCISTA ANTONIO SKÁRMETA

Ruy Câmara entrevista para o Vida&Arte, o escritor chileno, ANTONIO SKÁRMETA.

1- O senhor tornou-se uma celebridade mundial com o sucesso do romance, O Carteiro e o Poeta, que se tornou filme e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. O que mudou em sua vida essa experiência?

Skármeta: Mais que mudar a minha vida, o êxito do romance e do filme “O Carteiro e o Poeta” veio confirmar uma esperança. Quero dizer que, o original caminho que eu havia seguido desde a publicação do meu primeiro livro, alheio aos modismos da época, encontrei um dia milhões de leitores e de espectadores. Então, o livro e o filme se estimularam e se firmaram mutuamente. Recordo-te que, antes da estréia do filme “O Carteiro e o Poeta”, o romance já havia sido traduzido para quinze idiomas e já era um êxito absoluto de público e de crítica. Contudo, a magia do cinema fez com que a minha visibilidade como autor crescesse consideravelmente em todo o mundo.

2- Que paralelo o senhor poderia fazer entre sua vida e sua obra? Há algo em comum entre sua ficção e sua própria vida? Dê-nos uma pista.      

Skármeta: Desde cedo tive um sentimento muito forte da precariedade da vida e de sua frágil beleza. Talvez o fato de ser neto de emigrantes croatas no Chile (meus avós haviam perdido um país e não necessariamente haviam encontrado um outro) me ajudou a buscar um território mais estável do que aquele que me oferecia a realidade. Esse lugar eu o encontrei na literatura. Desde que comecei a escrever senti que o belo e triste espetáculo do mundo adquiria para mim lufadas de sentido. Igual ou identicamente aos meus personagens, eu também busquei na exposição do mundo real, nas viagens, nas aventuras de viver e no amor, intensos momentos de paixão e criação que deram a minha existência, não um sentido, mas apenas a ilusão de um sentido. Nesse aspecto sinto-me muito próximo dos meus anti-heróis das obras “As Bodas do Poeta” e “A Garota do Trombone”.    

3- Durante muitos anos seu nome esteve no anonimato, pelo menos no Brasil, enquanto outros autores latino-americanos ganhavam destaque mundial. Em algum momento da sua vida de escritor exilado o senhor pensou em desistir da carreira?

Skármeta: Tua pergunta tem a ver um pouco com o relativo desconhecimento mútuo que se verifica entre o Brasil e o resto da América Latina. Lembro-me que em 1969 eu já havia arrepanhado o Prêmio Casa de las Américas, com o livro “Desnudo en el tejado”. Em 1975 escrevi o romance “Soñé que la nieve ardía”, publicado pela Editorial Planeta e que em 1980 já estava publicado em quinze idiomas, em editoras importantes como Gallimard y Feltrinelli. O mesmo sucedeu com minhas obras posteriores a esta. O que ficou gravado no Brasil foi o êxito dos escritores do boom como, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, que por sua vez arrojaram luzes sobre escritores anteriores como Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti e Juan Rulfo. Por razões muito especiais, do pós-boom só se conhecia no Brasil o argentino Manuel Puig, graças ao êxito de “O Beijo da Mulher Aranha” e talvez porque ele vivia no Rio de Janeiro. Sem falar do fenômeno massivo de Isabel Allende, há ainda vários outros escritores de minha geração muito bem consolidados no imaginário internacional: Osvaldo Soriano, Eduardo Galeano, Luis Sepúlveda, Ariel Dorfman e mais um par de duas dezenas de grandes autores. De modo que, sempre me senti um escritor que estava escrevendo o que queria e, apesar disso, tinha uma boa presença internacional e ganhava prêmios importantes. Ao que me consta, o Brasil foi excluído do boom. Apesar dos anos de exílio, jamais pensei em desistir da escritura. Ademais, a minha vocação e a minha paixão pela literatura independe totalmente da recepção ou do sucesso. Por si só o ato de escrever me dá tanto prazer, que eu seguiria escrevendo sozinho até quando não houvesse mais nenhum leitor no mundo.                       

4- Até que ponto sua agente literária, Carmen Balcells, abriu portas para sua carreira mundial? 

Skármeta: As portas para a minha carreira eu mesmo as entreabri com minhas primeiras obras e a maravilhosa Carmem Barcells, minha agente, logo as abriu completamente.

5- No momento em que novo projeto se ocupa Antonio Skármeta?

Skármeta: No último ano andei bastante ocupado viajando pela Espanha e por toda a América Latina, cumprindo um intenso plano de atividades literárias, pois havia ganhado o Prêmio Planeta de Novela com o livro “El baile de la Victoria”. Já de volta desses giros escrevi um livro intitulado “Neruda por Skármeta”, que é tanto uma antologia de certos poemas especialmente relevantes de Neruda, como uma espécie de minha biografia da relação tão intensa que tive com a vida e a obra do poeta que me conduziu inclusive a transformá-lo em um personagem de ficção e de cinema.  Hoje trabalho a terceira parte de uma antologia que conclui com os romances “As bodas do poeta” e “A garota do trombone”, ambos publicados no Brasil pela Editora Record.

6- O senhor acredita que no futuro os idiomas espanhol e o português poderão convergir para uma língua única?

Skármeta: Não creio que o espanhol e o português venham a convergir no futuro para uma língua única. Creio mais no encanto da convivência. Adoro o temperamento distinto de cada língua. No jazz há uma palavra extraordinária para definir a singularidade de um cantor. Eis a frase: “Excita-me a maneira tão peculiar como cada povo fraseia seu idioma”. Entretanto, quanto mais línguas, melhor. Vivam as irmanadas diferenças!

7- O que o jovem Antônio Skármeta aprendeu com Pablo Neruda que possa servir de exemplo para os escritores iniciantes?

Skármeta: Aprendi que não há nada na face da Terra que não seja objeto da poesia e que, tampouco, há nada na esfera da imaginação que não possa desembocar na poesia. Aprendi que a poesia nasce do assombro e que provoca assombro. Aprendi ainda que a poesia é imensamente mais vital quando faz pulsar o uníssono e íntimo coração de um poeta com o de seu povo.

8- O senhor é um dos autores mais festejados na atualidade e já ganhou os mais importantes prêmios literários em diversos países. O Nobel da Literatura é um sonho possível?

Skármeta: Na América Latina há dois paises com formidáveis culturas e com grandes escritores que ainda não têm um Prêmio Nobel, o Brasil e a Argentina. Quanto ao Nobel, não creio que meu nome esteja na mira da Academia Sueca. 

9- Dentre os escritores da atualidade (vivos) cite os nomes que o senhor mais admira.  

Skármeta: Dentre os escritores que mais admiro na atualidade, tenho especial apreço por Paul Auster, Arthur Miller, Gabriel García Márquez, Agota Kristoff e Nicanor Parra.

10- Até que ponto o cargo de embaixador do Chile na Alemanha lhe ajuda ou atrapalha no seu ofício literário?

Skármeta: Durante três anos servi como embaixador do Chile na Alemanha e foi um prazer imenso poder trabalhar para o meu país durante o governo do presidente socialista Ricardo Lagos. Agora estou totalmente de volta à minha pátria íntima, a escritura, uma pátria que tem todas as suas fronteiras abertas para que entrem, sem necessidade de passaporte, os amigos do Brasil. Agradeço-te pela entrevista e que emoção é saber que dialogaremos na Bienal de Fortaleza. 

Ruy Câmara é poeta, romancista e dramaturgo, autor de “Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont”, Editora Record, vencedor do Prêmio ABL de Ficção 2004, categoria Melhor Romance do ano.

 

Antônio Skármeta é poeta, romancista, dramaturgo e tradutor, um dos nomes mais importantes da literatura mundial contemporânea, autor traduzido em mais de vinte idiomas e premiado em diversos países com as obras: A Garota do Trombone, A Redação, As Bodas do Poeta, Não foi Nada, O Carteiro e o Poeta e A Velocidade do Amor, todos pela Editora Record.