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Maria Savu, poetisa romena, pergunta: quem é Ruy Câmara?

  1. Ao ver nas estantes das livrarias “Os Cantos de Outono”, com certeza o leitor romeno vai querer saber quem é o seu autor. Portanto, quem é você, Ruy Câmara?
    Sou um romancista apaixonado pela senhora Poesia e admirador de um punhado de autores universais que me inspiram a trilhar por um dos mais difíceis caminhos que alguém pode escolher para si: o ofício literário. Mas há quem diga que continuo sendo aquele idealista que na juventude escreveu uns versinhos que respondem, em parte a sua pergunta: Sou um poetinha inconformado e comedido/e não componho para transformar o mundo/nem exponho tudo o que é sentido/e comovido, sofro mudo.
  1. Você fez muita coisa na vida: foi engenheiro, empresário, sociólogo, estudou dramaturgia para o teatro, cinema e televisão, fez marketing político, para citar apenas algumas das suas especializações. Mas, ao que parece, a voz da literatura falou mais alto. Como e quando se deu conta do fato de a literatura representar para você o caminho certo?
Tudo na vida ocorre por alguma circunstância. Em 1991 eu sobrevivia à morte de minha filha caçula (Lia Câmara) e a vida já não tinha encanto e nem mesmo significado. Eu sofria tanto e andava tão revoltado contra os desígnios, que passei a amaldiçoar os deuses, os demônios e tudo aquilo que a catequese havia me ensinado. É verdade que pensei em suicídio. Um dia uma alma caridosa colocou à porta de nossa casa um bebê com 20 dias de nascido, meu filho Davi Câmara, que hoje tem 17 anos. Meses depois eu decidi que era tempo de fazer aquilo que eu sempre desejei e que por tantas vezes adiei: escrever livros. No dia 15 de abril de 1992, reuni minha família e comuniquei a decisão insubmissa de abandonar a carreira empresarial para me dedicar exclusivamente ao ofício literário. Transformei a casa numa imensa biblioteca e ali permaneci encafuado ao longo de 12 anos, lendo e escrevendo para contentar o próprio espírito, e resistindo bravamente às tentações de publicar. A literatura passou a ser o refúgio da minha fuga e também a instância das minhas reflexões. Foi nessas circunstâncias que me tornei escritor. Hoje, já maduro e purgado de outras questões aflitivas, creio que é chegado o momento de me expressar com plenitude, supondo que tenho muito a dizer aos leitores de todas as línguas, notadamente àquelas pessoas que como eu um dia se viram oprimidas pelos desígnios, pela família, pela sociedade ou pelo Estado.
  1. Sua carreira literária começou pela poesia, mas a sua estréia se deu através deste romance, “Cantos de Outono”, que trata da vida de um poeta francês nascido no Uruguai. O fato de ter escrito primeiro poesias influenciou de certa forma a escolha de Lautréamont como personagem do seu romance?
Claro que sim, e aprendi muito com os poetas absolutos, afinal, só eles e os deuses sabem, por experiência vivida ou imaginada, que o ato da criação é uma eternidade sufocante. De certa forma foi a poesia que levou-me ao spleen e à nevrose de Isidore Ducasse, o criador do Conde de Lautréamont. Contudo, meu primeiro contato com esse personagem se deu  graças a um furto literário cometido pelo poeta José Alcides Pinto, falecido em 2008, vítima de um atropelamento. Lembro-me que em 1994 ele foi ao Rio de Janeiro e subtraiu da biblioteca do bibliófilo, José Bonifácio Câmara (meu primo, já falecido) um faxsímile “d’Os Cantos de Maldoror” e o enviou-me juntamente com um bilhete no qual dizia: “Querido Ruy, cometi um delito imperdoável na biblioteca de um amigo para compartilhar contigo o banquete literário de Lautréamont.” Foi assim que tudo começou. Mas o que me motivou a trilhar no rastro de Lautréamont foi o desafio quase impossível de desvelar os mistérios de sua vida para reconstruir aquilo que mais provavelmente possa ter sido Ducasse num país que o ignorava completamente.    
  1. De que forma entraram na sua vida “Os Cantos de Maldoror”, a única obra publicada do Conde de Lautréamont?
Essa obra  caiu em minhas mãos num momento caótico em que eu procurava um personagem incomum, um ente acuado no seu próprio dilema, sem espaço para se expressar, sem o recurso que se busca nas alturas e insubmisso às lógicas vigentes. Talvez eu andasse em busca do meu “eu essencial” ou de um autor que me permitisse compreender algo que jaz no íntimo mais profundo de cada grande poeta e escritor. Ao ler pela primeira vez Os Cantos senti uma estranha sensação de rejeição, mas num breve virar de página, já era irremediavelmente tarde para fugir da armadilha. Noutro momento reli-o cerrada e desesperadamente, como se estivesse naquele estado de torpor intelectual em que o solitário Ducasse era visto, ora ébrio e feliz, entornando taças de vinho no cabaré du Ciel et de l’Enfer, no Mont­martre, ora triste e decaído, ingerindo pétalas opiáceas num bordel qualquer, de uma ruela qualquer, numa noite qualquer da velha e bela Paris do século 19.  Rejeitei e logo me afeiçoei aos Cantos porque percebi que estava diante de uma escritura alquímica e alucinatória, estranhamente perturbadora e sem paralelos em nossa tradição literária, e que, apesar de obumbrada ao longo de 145 anos, vacina a literatura de uma grave doença : a banalidade.
  1. Qual foi o impacto dos “Cantos” sobre você?
O impacto foi tremendo, pois ninguém sobrevive impunemente após uma temporada nas trevas de um gênio. O espanto provocado pela morbidez violenta dos Cantos me despertou a curiosidade de saber quem teria sido Lautréamont. Naquela época minha vida era pura conformação; havia uma pequena reserva financeira que me permitia ousar e eu senti que poderia me lançar em tal aventura. Mas, por onde começar? A partir de epítomes recortados d’Os Cantos de Maldoror?  Das pistas biobibliográficas deixadas pelos autores que me antecederam na empreitada? Do minguado documental em poder dos colecionadores, livreiros e alfarrabistas da Europa? Quem incentivaria um autor em início de carreira para levar adiante um projeto oneroso e de tamanha complexidade e envergadura? Para tais perguntas eu não tinha resposta, mas apenas a vontade imperiosa de reintroduzir no mundo contemporâneo um mito literário que se mantinha no breu do anonimato e impedido de reencontrar novos leitores.
  1. Há vários anos, o grande pianista brasileiro João Carlos Martins me falava sobre o seu relacionamento pessoal com Bach. Qual o seu relacionamento pessoal com o Conde de Lautréamont?
Meu relacionamento com esse personagem é puramente intelectual, tanto pela sua condição de legítimo representante de uma misoginia de poetas malditos, renegados e esquecidos, quanto pela sua importância universal, afinal Ducasse edificou sobre os próprios ossos uma catedral de metáforas, contribuindo assim para desmantelar a arquitetura convencional da literatura bem comportada, e com isso inspirou os movimentos mais avançados no que se refere à criatividade poética e artística no século 19, como o Surrealismo. Mas não posso omitir o meu afeto paterno pelo personagem que recriei, e o fiz com a convicção de que umescritor que não incorpora seu personagem, corre o risco de ser infiel a ele, a si próprio e à arte. Reinventei Lautréamont como se buscasse uma síntese própria de compreensão para justificar a maior estupidez humana: o suicídio. Motivado por essa secretíssima tentação, ele se desloca nos espaços imaginários do enredo e atua num tempo narrativo que se projeta e se contrai para nos dar a dimensão do universo que ele gostaria de criar ou de destruir ao seu modo. Recorri à verossimilhança do absurdo porque me vi na obrigação de devolver a Isidore Ducasse a sua tão cobiçada negação existencial, que em parte exprime a crise existencial do indivíduo numa sociedade em que o absurdo tem amparo legal nas lógicas e ilógicas vigentes. A crueldade narrativa da obra de Ducasse evoca a melhor das intenções de um personagem demasido humano, que prefere um espinho à navalha, cuja ação é mais cruel do que mortífera. Por esse ângulo ele foi mordido por Jean Paul Sartre, ironizado por Albert Camus e desmerecido por Georges Luckás, e do outro lado foi exaltado por André Gide, André Breton, André Mauraux, Paul Éluard, Philippe Soupault, Gaston Bachelard, Antonin Artaud, Salvador Dali, Walter Benjamin, Georges Bataille, Octávio Paz, Pablo Neruda, Marcelin Pleynet, Le Clézio e por uma legião de autores e fãs. Entretanto não se pode negar que os ataques, em parte, são reflexos do moralismo derivado do ideal crucífero, que realça bem o componente conservador ou mesmo laico de uma época romântica e preconceituosa que se estende até os dias atuais. Mas até mesmo os adversários reconhecem que Ducasse é autor de um texto cifrado, singular e único, porque ousou em demasia: no plágio, na crueldade, na ingenuidade, nas improbidades estilísticas, inovou em estética e levou ao extremo, tanto na ficção, quanto na vida real, a busca existencialista do impossível, onde Sartre se perdeu: Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta… acreditava ser mais! Ducasse parece ter compreendido melhor que Sartre e Camus que o ímpeto rebelde e vanguardista é próprio da juventude e somente a juventude é capaz de jogar ciscos nos olhos da experiência.
  1. “Os Cantos de Outono” representam a sua estréia como escritor. E, como sabemos, existem poucos elementos biográficos concretos sobre Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. Nos fale um pouco sobre a atividade de pesquisa para este romance.
O romance deve ser compreendido e catalogado  como uma ficção com fundamentação histórica e biobibliográfica, fruto de uma pesquisa minuciosa que demandou anos. Iniciei o trabalho em 1996 com a convicção de que havia material suficiente para uma biografia fidedigna. Mas com o andar das pesquisas fui descobrindo o contrário. Entre 1997 e 1999 fiz dezenas de viagens para  garimpar nos cemitérios, igrejas, liceus, bibliotecas, antiquários, livrarias e alfarrábios do Uruguai, França, Espanha, Bélgica e Portugal. Após três anos de investigação, paralisei o trabalho, supondo que estava diante de um enigma indesvelável. Já havia lido e relido centenas de textos reunidos nas expedições anteriores, mas eu sentia falta de elementos palpáveis para fundamentar o projeto. O que havia resumia-se a um punhado de livros dos autores que esboçaram um perfil de Lautréamont; um faxsímile de Les Chants de Maldoror, edição de 1868, que consegui comprar de um alfarrabista em Lisboa; um livro inacabado, intitulado Poesias; a certidão de nascimento de Ducasse, que consegui na Cúria de Montevidéu; 7 cartas de Decasse; uma foto de sua formatura no antigo Liceu Imperial de Pau e uma cópia do atestado de óbito, expedido pela prefeitura do Sena em 1870. Quando sentei para escrever o romance comecei a experimentar na própria carne um sofrimento quase expiatório. Nos momentos de absoluta incriatividade, pensei em abortar o projeto, acreditando que havia chegado naquele ponto intransponível em que muitos biógrafos que me precederam acabaram esbarrando. Aí, precisamente, vi-me envolvido numa armadilha real. Já havia consumido boa parte das minhas economias e não conseguia vislumbrar nenhuma direção a tomar. Noutro momento, quando surgia uma nova pista, o trabalho era retomado com tanta euforia, que ficava difícil conter o ímpeto. Em verdade eu sentia os efeitos nocivos das minhas limitações materiais e intelectuais para continuar o trabalho. Estava claro que o “nada biográfico” de Isidore Ducasse estava me levando à frustração. A dificuldade maior foi  achar o momento certo para penetrar na sua redoma de tédio e desvelar o seu universo, um anti-universo obscuro e aterrador, que se encolhia a cada tentativa minha de sondar as suas profundezas. Demorei dois anos para estruturar as curvas dramáticas da obra, temendo atentar contra a vontade dolorosa e degradada do meu personagem. Talvez por isso, alguns biógrafos que se lançaram nessa aventura não tiveram êxito. Outros, por questões elementares de rigor e ortodoxia, ou porque se viram diante de um vulto estranhíssimo e estigmatizado por um encadeamento sucessivo de algenias e esquecimentos, simplesmente desistiram da empreitada. Só depois, quando visualizei as circunstâncias que poderiam me levar ao desfecho, percebi que, quando a arte precisa triunfar sobre a racionalidade seca e objetiva exigida numa dada ação, minha consciência escapava para a anti-sala da razão e eu me via novamente perambulando em Montevidéu, Tarbes, Pau, Paris e Bruxelas, ora diante de uma tumba, ora encafuado naqueles cenários taciturnos, cercado de pensamentos e aflições, como se fizesse parte de todo aquele imaginário que eu recriava. Dias ou mesmo semanas numa página que não se resolvia. Nas altas noites, quantas vezes me vi só, inteiramente perdido nas veredas escuras das próprias idéias, preso às abstrações mais complexas da mente de Lautréamont, sem saber como conduzir Isidore Ducasse para uma conclusão. Lembro-me bem de um episódio ocorrido em Paris, no quarto 56 do Hotel do Cais Voltaire, o mesmo que serviu de refúgio e covil a Baudelaire, Wagner, Lautréamont e Oscar Wilde, que me levou a reescrever os momentos que precederam o suicídio de Isidore Ducasse. Era madrugada. Relâmpagos, trovões e ventava, e chovia intensamente. Eu estava completamente esgotado e sem condições de escrever o epílogo. Já havia bebido uma garrafa de vinho quando tive a estranha sensação de que o gênio de Lautréamont conseguia transitar livremente nas zonas de intransitividade dos meus sentidos. O que ocorreu ali, aos parâmetros da razão absoluta, parece suprareal, mas aos parâmetros da arte, tudo é possível. E naquela noite outonal de 24 de novembro de 2001, pondo em confronto aquilo que Marcelin Pleynet aventou sobre o contraste da dupla alteridade entre Ducasse e Lautréamont, consegui, finalmente, levá-los ao calvário e finalizei o livro. 
  1. Qual a proporção de ficção e de realidade neste romance?
Quando um romancista caminha no deserto da redução eidética, que objetiva transformar os fenômenos em essências, ele corre o risco de alcançar a pura esterilidade da arte. Isso ocorre porque a arte literária se expressa com mais plenitude quando as fronteiras entre a realidade e a ficção são tênues e contíguas. Por essa razão é impossível dar aqui uma resposta conclusiva, assim como é impossível mensurar o quanto de ficção e de imaginação conforma a realidade ou o que tomamos por real. Por exemplo: quando alguém vai a um templo sagrado pedir a proteção do Altíssimo, não se questiona o que é real ou imaginário. Quando confrontamos os fundamentos ideológicos com as práxis históricas do comunismo, do socialismo e do capitalismo, não há como distinguir as verdades dos simulacros. O mesmo vale para o que tomamos por liberdade, democracia, justiça e estado de direito. Quem poderia quantificar a ficção inserida pelos autores nas sagradas escrituras? Como negar que as abstrações e invenções governam o mundo e controlam os desígnios das civilizações? Nessa obra eu procurei situar o personagem muito  próximo da coerência que se busca numa abordagem mais formalista, entretanto tive enorme dificuldade porque, em verdade, Lautréamont é um fantasma que se ergue sobre os pilares de muitas hipóteses e poucos fatos, e como tal não pode ser encontrado jamais, senão nas pistas biográficas e nos recortes de sua própria obra. Evitei cair na vala do determinismo direto e reto da história ou da trama puramente biográfica do personagem porque sua existência real é uma lacuna que só pode ser preenchida por componentes de verossimilhança literária. Estabeleci um contraponto com a ortodoxia imposta ao gênero biográfico, por uma razão: não fosse a circunstância de ter ele uma existência civil plenamente comprovada, Isidore Ducasse poderia estar no mesmo caso de Lucrécio, autor de ’A natureza das coisas”, grande poeta romano sem biografia.
  1. No seu romance Voltaire aparece como personagem. Por quê?
Servi-me de Voltaire (o velho iluminista que conhecia as veredas do próprio destino,  pai do romance filosófico, o mais fértil e conciso escritor da França, cuja obra equivale à produção de uma geração inteira de escritores, e que foi expulso da corte de Versalhes para viver os últimos anos entre excrementos e mijo) por dois motivos: para expressar a minha desconfiança no empirismo tosco e estéril que se arroga científico na recente era da ditadura da ciência e das doutrinas; e para metaforizar num pesadelo de Ducasse, um pesadelo real tão presente nos tempos que correm: o drama do indivíduo numa sociedade opressora que o reconhece pela utilidade e o desmerece pela significação.
  1. Duas outras personagens do romance que, sem sombra de dúvida, irão chamar a atenção do leitor são o Olhar do Alto e a Voz que narra. Qual o seu significado na estrutura do romance?
Esses personagens invisíveis são os ecos do nosso drama de cultura, mas podem ser também a metáfora das nossas dúvidas intimistas ou mesmo do drama de consciência do indivíduo. O Olhar do Alto, sempre oculto, assim como a Voz que narra, que nem sempre é do narrador, se expressam no enredo por códigos que exigem de nós, interlocutores mudos, um metacódigo referencial com o qual possamos identificar, na ação e no tempo, quando o Olhar diz o que a Voz nos faz ver. Essa inversão da função dos nossos sentidos é um dos  efeitos miméticos, ilusórios e lúdicos para elevar a ação ao patamar da visão surreal de Lautréamont. O Olhar oculto que do alto tudo pode ver e controlar, e a Voz que aparece no enredo sem pedir licença ao leitor, são fronteiras funcionais de uma estética que procurei adotar com o fito de desvelar a suposta instância simbólica do “eu essencial” que se oculta em cada um de nós no mundo concreto. Eles atuam no enredo para justificar a ausência presente do personagem que, já não mais podendo conduzir o próprio Olhar para um mundo que ele gostaria de recriar ou de destruir, corria o risco de emudecer.
Voz, que não emudeça por simples liberdade poética, nem por obediência às letras, já tão castigadas pelos rigores da lógica vigente, afinal, a Voz que acabamos de ouvir, sempre presente no enredo, não é um mero artifício de estilo, mas uma idéia indecifrável, indefinível do ângulo racional, imprecisa do ponto de vista da lógica, do significado objetivado do real, que é irreal quando se intenta decifrar o que sequer fora dito, que é irracional quando não se percebe que o olhar do alto é apenas uma suposição que está longe e ao mesmo tempo muito próxima da ação, de tal modo que, como tantas outras ilusões de semelhança humanas, é sumamente onipresente, porém, incapaz de alterar uma circunstância criada, incapaz de traçar o devir, que em linguagem cristã é também o desígnio de cada um, ou talvez de todos, consoante, podendo ser esse Olhar uma metáfora, pode ser confundido com o olhar do próprio Criador, ou do narrador, que no esforço de dar vida a um ente já extinto, se supõe igualmente supremo e soberano.
  1. O caminho deste romance foi longo e, imagino, nem sempre fácil. Quem é que lhe deu força para continuar?
“Cantos de Outono” é o final de um percurso realizado, um percurso que dificilmente ousarei repetir. Sem dúvida, foi a aventura mais difícil e ousada em que me lancei ao longo da vida. Para compor essa obra eu tive de sacrificar o convívio com minha família e com os amigos que reclamavam a minha ausência. Mas eu não teria conseguido realizar esse percurso sem a cumplicidade de minha mulher, Rossana, sem o silêncio dos meus filhos e sem os incentivos que eu recebia dos meus irmãos poetas, José Alcides Pinto, Gerardo Mello Mourão e Ivan Junqueira. Mas admito que a embaixadora, Monica Grigoresco, tem razão quando insinua que as mãos de Baudelaire, Lautréamont, Breton, Augusto do Anjos e Cruz e Sousa pousaram sobre a minha cabeça.    
  1. Depois de encerrado, qual foi o caminho editorial dos “Cantos de Outono”?
Quando finalizei o romance em Paris, voltei ao Ceará, fiz as revisões de praxe e o enviei para duas importantes editoras do Brasil, mas ambas o recusaram sem comentários e sem vestígios de que o teriam lido. Inconformado com a minha negligência e falta de experiência, o poeta Ivan Junqueira remeteu o original aos cuidados de Luciana Villas-Boas, da Editora Record, que não tardou em comprar os direitos de publicação e meses depois o livro estava nas vitrines das boas livrarias do Brasil.  
  1. No Brasil, o romance foi editado pela Record, que é, com certeza, a melhor editora não só do Brasil, mas também da América Latina. Qual foi a sua reação ao saber que a Record publicaria os “Cantos de Outono”?
Tive uma grande alegria quando Luciana Villas-Boas me convidou para um jantar em sua casa, no Rio de Janeiro, e entregou-me o contrato editorial. Senti-me recompensado quando ela  anunciou que minha obra de estréia seria publicada no Brasil com dignidade e que seria distribuída em escala nacional. Graças a ela, que é uma editora por excelência e uma leitora habituada às longas jornadas do pensamento, Cantos de Outono tem existência comprovada em língua portuguesa e agora noutras línguas.  
  1. Em 2004 o romance foi premiado pela Academia Brasileira de Letras e foi também finalista do Prêmio Jabuti. Esperava por este reconhecimento tão rápido?
Estávamos eu e Rossana em Parati, litoral do Rio de Janeiro, visitando a FLIP, quando a imprensa noticiou esses prêmios, sem dúvida, os mais importantes da literatura brasileira. Fui às nuvens e só aterrissei quando me levaram à tenda dos autores e os dois editores que haviam recusado a obra vieram me cumprimentar com todo respeito. Sinceramente eu não esperava que o romance, escrito numa época caótica, com suor e lágrimas, seria tão aplaudido pela crítica especializada e alçado à condição de obra importante para a literatura brasileira e latino-americana.
  1. O livro já foi traduzido para o espanhol, inglês, francês e alemão e, “um luxo”, segundo a sua editora brasileira, para o romeno. Porquê para o romeno?
Ser traduzido por Iulia Baran e publicado pela RAO Books em romano é, de fato, um luxo para qualquer autor de língua portuguesa, notadamente para quem escreve objetivando contentar o próprio espírito.  Mas não posso omitir a minha gratidão aos meus tradutores, Don Basílio Losada, Marie-Hélène Paret Passos, John B. Jensen e Reiner Domschke, que dedicaram anos de suas vidas traduzindo a obra que agora se publica na Romênia, graças aos esforços da agente literária,Tamara Vukicevic, da PRAVA I PREVODI Literary Agency; graças ao faro refinado de Gabriela Trasculescu e à sensibilidade de Diana Turculet e Alina Bruto, da RAO Books.    
  1. A Editora RAO International, uma das mais importantes da Romênia, adquiriu os direitos de publicação e introduziu um novo escritor brasileiro na paisagem literária deste país do Leste europeu. Acha que o romance, no seu roteiro internacional, está no caminho certo?
Penso que sim. A publicação na língua de Eminescu tem um significado muito especial para mim, primeiro  porque, reafirma a vitória da arte pela arte mesma; segundo porque, fica patente que no domínio da criação só pode existir concretamente aquilo que antes existia simbolicamente; terceiro porque, valida o caráter subversivo e libertário do criador, privilegiando o autor e sua obra num país milenar em que ambos se completam e se confundem com a entidade pensante que jaz e se eterniza no vulto universal de Isidore Ducasse. Entretanto esse romance precisa de um tempo para ser lido, relido e assimilado. Não se resume apenas à vida de Lautréamont. As idéias sobre o real estão todas aí e eu creio que aos poucos ele irá encontrando seus leitores e terá vida longa.
  1. O livro acaba de ser lançado em Bucareste e, devemos dizer que o lançamento teve lugar num dia especial: o dia do seu aniversário. Esperava que o lançamento se desse naquele dia?
A última vez que comemorei o meu aniversário foi em 1992, de sorte que eu não esperava jamais completar anos em tão grande estilo, numa tarde linda e solene em que a diplomacia e poesia se deram as mãos. Saí da Romênia com muita esperança de que os leitores romenos apreciem com vagar essa obra e compreendam a razão pela qual a ficção do autor não pode consentir que a racionalidade pura se aposse dos espaços reservados aos sonhos.
  1. Como lhe pareceu o cenário do lançamento, a livraria “Cărtureşti”?
 A Livraria Carturesti é um espaço acolhedor, cheio de charme e tem o requinte de uma livraria antiquário do século 19 em plena era da volatilidade. Eu e Rossana só temos a agradecer ao povo romeno pela acolhida tão carinhosa.
  1. Passou uma semana na Romênia e teve tempo de apreciar também algumas das belezas deste país. Qual foi a impressão que lhe deixou esta parte da Romênia que teve a oportunidade de conhecer?
Foram dias maravilhosos. Além de exímia tradutora, Iulia Baran é uma impecável anfitriã. Ela nos deu a chance de conhecer os mais belos recantos de Bucareste e depois nos levou aos cumes dos Montes Cárpatos, onde comemos queijos conservados na casca de pinho, geléia de ginja e a mais saborosa carne de porco defumada do planeta. Estivemos na Vila de Bran, no castelo do mitológico Conde Drácula. Depois fomos à Brasov, entramos numa livraria e lá estava Cantece de Toamña ao lado do livro de Obama.  
  1. Voltando agora à sua carreira de escritor, o que é que está neste momento na sua mesa de trabalho?
No momento estou finalizando “O Alfarrabista”, obra que já me furtou quatro anos de trabalho e que em breve virá à luz.
  1. E para encerrarmos este entrevista, qual a sua mensagem ao leitores romenos e sobretudo ao leitores da Revista Cultura?
Espero que os leitores romenos não se assustem tanto com as impertinências de Ducasse, esse vulto que fez da vida uma aventura literária que perdura no tempo porque a arte pode durar sempre mais que a vida. Tanto é verdade que foi na morte, como prêmio máximo para justificar sua existência, que Ducasse, o filho bastardo de uma França católica e positivista, mãe de Baudelaire e Rimbaud, fixou o marco da rebelião artística que tanto nos inspira e nos ensina.