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DEUS ME LIVRE DOS BELETRISTAS

A Internet é um recurso fantástico, por isso mesmo se torna o reino da proliferação de mensagens de auto-ajuda, de baixa-ajuda e de tudo o quanto se inventa em matéria de signos de linguagem e comunicação. Como detesto o subgênero da auto-ajuda, uma vez por semana dou-me à pachorra de retirar do espaço syber o entulho que me enviam ensinado-me a ser feliz, a ser do bem, a conquistar amigos com demagogia, a falar com Deus sem intermediários, a gozar por horas a fio as tremuras da carne, como no filme, De Olhos bem fechados, a enriquecer sem deixar pistas das fraudes, a ler um livro de mil páginas em uma hora e por aí.

Dias atrás recebi um e-mail de um Beletrista pedindo-me para prefaciar seu livro. Como é praxe, pedi-lhe o original para uma apreciação. Dias depois, aAo chegar em minha casa e vendo-me sobraçado com um tomo de Foucault, ele, cinicamente, perguntou-me se eu ainda tinha saco para ler livros volumosos. Dei-lhe o calado como resposta. Ele empertigou-se diante do meu silêncio e apressou-se em dizer que é poeta e que almeja uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Em seguida disse-me que se tornara culto lendo versões condensadas e resumos dos clássicos da literatura que circulam por aí. Após a fatigante conversa e inconformado com a minha indiferença, o Beletrista se foi. No dia seguinte enviou-me um e-mail, o qual reproduzo aqui com o fito de animar a vida dos leitores de longo curso, raríssimos até nos redutos acadêmicos.

Prezado Ruy:

Não desperdice seu tempo lendo mil páginas daqueles livros sacais que vi em suas estantes. Seja prático. Aproveite as versões condensadas dos clássicos disponíveis na Internet. Para que o senhor não ponha em dúvida a minha erudição, eis os resumos dos livros condensados que já li.

Marcel Proust,  Em busca do tempo perdido.

Proust conta as artimanhas de um rapazinho frágil e asmático que sofre de insônia porque sua mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (saltamos para a pg. 486. I vol.) ele come um biscoito, sente cheiros e resolve escrever um livro. Nessa noite (pulamos para a pg. 1344. VI vol.) ele tem um ataque de asma porque a namorada ou namorado se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde todos já estão velhinhos lembrando do passado e pronto.

Leon Tolstoi, Guerra e Paz (1800 pg.)

Trata-se de um moço que não quer ir à guerra e por tal motivo Napoleão invade Moscou. Sua namoradinha casa-se com outro e fim.

Luís de Camões, Os Lusíadas.

Trata-se de um poeta pobretão e insone que resolve encher o saco do El-Rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganha a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.

Gustave Flaubert, Madame Bovary, (378 páginas)

O livro conta a história de uma dona de casa que mete um chifre no marido e sai transando com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o chapeleiro, com um vizinho cheio da grana e depois cai em depressão, envenena-se e morre.

William Shakespeare, Hamlet, Oxford Press.

Trata-se de um príncipe com a cabeça cheia de grilos que passeia num castelo e vê o fantasma do pai, que lhe diz ter sido assassinado pelo tio que dorme com a mãe. Por vingança o príncipe mata o tio traidor e, depois de falar com uma caveira, ele é assassinado pelo irmão da namorada, que era doida e ao final também se suicida bestamente.

William Shakespeare, Romeo and Juliet, Oxford Press.

Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro. Lá não sei em que página as duas turmas saem na porrada, muita gente se machuca e, num dado momento, surge um padre com uma idéia idiota e os dois adolescentes morrem porque caíram na tolice de beber veneno pensando que era energético.

Sófocles, Édipo-Rei, tragédia grega.

Um sujeito tarado entra numa onda de horror, não ouve o que lhe diz um ceguinho, acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os próprios olhos de tão arrependido que ficou. Por conta desses complexos e loucuras, séculos depois aparece Freud, que inventa o inconsciente humano, zona obscura que nem Deus penetra, e, conseqüentemente inventa a psicanálise, ciência que, ao saber de um sujeito deprimido, aproveita para arrancar-lhe os olhos da cara em cada consulta, impiedosamente.

Diante de tamanha Cultura, confidencio com o leitor que o Beletrista me surpreendeu, tanto que lhe dediquei substancial espaço nesta coluna. Contudo, ainda sou incapaz de ler bem (no sentido mais amplo do termo) numa tela do computador, tampouco me apraz recorrer às versões resumidas das grandes obras. Seria o mesmo que ouvir uma bela sinfonia fragmentada em pedaços. Seria como ver um filme inesquecível na telinha mal definida do media play. Apesar da modernidade, só consigo desfrutar de um bom filme na penumbra do cinema, diante da telona, ouvindo todos os sons e comendo pipoca. Imagine o leitor o que seria de um filme como O carteiro e o poeta com uma série de cortes despropositados. Nessa lógica automática o que seria dos curtas metragens? Nem precisaríamos assisti-los. Bastaria uma foto. Em verdade o que me seduz na leitura, assim com na música, no teatro, na dança e no cinema é a possibilidade de sentir lentamente o prazer da demora, como ocorre quando estou diante dos grandes romances de cavalaria e dos velhos e novos clássicos do cinema. Com isso deixo claro que o Beletrista tem muito mais chance de conseguir uma vaga na ABL do que tirar de mim um prefácio para seu livro.

Ruy Câmara